Não nasci na beira do rio. Não pesco pra almoçar, e na verdade até pouco tempo nem gostava de peixe.
Não fui atingida por nenhuma cheia, tão pouco vi tudo o que fora conquistado numa vida ser perdido embaixo d'água.
Nunca corporação alguma me procurou para dizer: pega o que é teu e vai pra outro lugar onde a vida será melhor.
Nunca perdi um parente numa guerra que não era da minha pátria. Nem esperei pelo retorno deste por uma eternidade. E nenhuma vez alguém próximo a mim me deixou para tentar uma vida melhor em outro lugar.
Nunca corporação alguma me procurou para dizer: pega o que é teu e vai pra outro lugar onde a vida será melhor.
Nunca perdi um parente numa guerra que não era da minha pátria. Nem esperei pelo retorno deste por uma eternidade. E nenhuma vez alguém próximo a mim me deixou para tentar uma vida melhor em outro lugar.
Não tenho minhas raízes fincadas pelas terras de Rondônia. Mas só Deus sabe o quanto Lete me tocou. Como nunca tinha sentido no teatro. Eu chorei. Algumas vezes, aliás. Uma delas foi de rir.
Interessante como a metalinguagem é inserida e algumas vezes parece até que não é peça. Parece que é discussão entre Elizeu e Alessandra.
Lete já foi apresentada várias vezes em Porto Velho, com elencos distintos, e quem viu antes contou que várias partes mudam a cada vez que o espetáculo toma ar. Ainda assim, algumas impressões denunciam que a apresentação no Teatro 1 do Sesc Esplanada, na data de 20 de maio, tenha sido a mais intensa. Até agora.
Assisti atenta, junto com as outras centenas de pessoas no teatro. Ganhei cachaça do Rodrigo Vrech, que é diretor da peça. Tive que beber - mas não tudo - porque o Sr Raimundo/Elizeu estava com um nó na garganta. Não dava pra beber daquele jeito. A sombra da corrupção tentando se espalhar no atingido. E mais que isso, o fim da força da luta contra todo um sistema que se mostra invencível.
Assistindo Lete concluí algo que mexeu comigo:
Algumas pessoas querem dinheiro. Querem poder. Querem uma casa mais bonita com jardim na frente. Rua asfaltada, sistema de esgoto, escola pertinho e outras facilidades urbanas.
Outras, querem aquilo que sempre tiveram: Raízes.
Outras, querem aquilo que sempre tiveram: Raízes.
Cultura fortalecida. Valor naquilo que 'não tem cifrão na frente'. Um café e uma prosa com a vizinha. As crianças tudo brincando na rua.
Tem gente, percebi, que está alheia à essa corrida estranha da vida que temos nos dias de hoje. Quanto custam as raízes levadas com o desbarrancamento do rio?
A simplicidade dos itens de cenário da peça se confundem com a vida dos que são ali retratados. E mais que um retrato, Rodrigo Vrech faz questão de lembrar já quase no fim, a peça busca deixa uma reflexão: Centenas de famílias saíram de casa na última cheia e muitas comunidades ribeirinhas do médio e baixo madeira nunca serão mais serão as mesmas.
Fiquei pensando: qual é o nosso valor?
O da cia Beradera ficou claro. Todos os olhos antes atentos se converteram em palmas que demoraram a cessar quando o espetáculo terminou.
Um belíssimo trabalho que merece ser mostrado quantas vezes mais for possível. E se eu puder ver de novo "é pra lá que eu vou, é pra lá que eu vou".
Um belíssimo trabalho que merece ser mostrado quantas vezes mais for possível. E se eu puder ver de novo "é pra lá que eu vou, é pra lá que eu vou".
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Lete é interpretada por:
Andressa da Silva - atriz
Cláudio Zarco - ator
Elizeu Braga - ator
Rodrigo Vrech, ator e diretor
Este ano de 2015 fizeram uma turnê pelo norte do país mostrando a peça à vários estados através do Sesc Amazônia das Artes.

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