segunda-feira, 25 de maio de 2015

Lete - Cia Beradera de Teatro


Não nasci na beira do rio. Não pesco pra almoçar, e na verdade até pouco tempo nem gostava de peixe. 

Não fui atingida por nenhuma cheia, tão pouco vi tudo o que fora conquistado numa vida ser perdido embaixo d'água.
Nunca corporação alguma me procurou para dizer: pega o que é teu e vai pra outro lugar onde a vida será melhor.
Nunca perdi um parente numa guerra que não era da minha pátria. Nem esperei pelo retorno deste por uma eternidade. E nenhuma vez alguém próximo a mim me deixou para tentar uma vida melhor em outro lugar.

Não tenho minhas raízes fincadas pelas terras de Rondônia. Mas só Deus sabe o quanto Lete me tocou. Como nunca tinha sentido no teatro. Eu chorei. Algumas vezes, aliás. Uma delas foi de rir.

Interessante como a metalinguagem é inserida e algumas vezes parece até que não é peça. Parece que é discussão entre Elizeu e Alessandra. 

Lete já foi apresentada várias vezes em Porto Velho, com elencos distintos, e quem viu antes contou que várias partes mudam a cada vez que o espetáculo toma ar. Ainda assim, algumas impressões denunciam que a apresentação no Teatro 1 do Sesc Esplanada, na data de 20 de maio, tenha sido a mais intensa. Até agora.

Assisti atenta, junto com as outras centenas de pessoas no teatro. Ganhei cachaça do Rodrigo Vrech, que é diretor da peça. Tive que beber - mas não tudo - porque o Sr Raimundo/Elizeu estava com um nó na garganta. Não dava pra beber daquele jeito. A sombra da corrupção tentando se espalhar no atingido. E mais que isso, o fim da força da luta contra todo um sistema que se mostra invencível. 
Foto: Agenda Porto Velho.

Assistindo Lete concluí algo que mexeu comigo:
Algumas pessoas querem dinheiro. Querem poder. Querem uma casa mais bonita com jardim na frente. Rua asfaltada, sistema de esgoto, escola pertinho e outras facilidades urbanas.
Outras, querem aquilo que sempre tiveram: Raízes. 
Cultura fortalecida. Valor naquilo que 'não tem cifrão na frente'. Um café e uma prosa com a vizinha. As crianças tudo brincando na rua. 

Tem gente, percebi, que está alheia à essa corrida estranha da vida que temos nos dias de hoje. Quanto custam as raízes levadas com o desbarrancamento do rio? 

A simplicidade dos itens de cenário da peça se confundem com a vida dos que são ali retratados. E mais que um retrato, Rodrigo Vrech faz questão de lembrar já quase no fim, a peça busca deixa uma reflexão: Centenas de famílias saíram de casa na última cheia e muitas comunidades ribeirinhas do médio e baixo madeira nunca serão mais serão as mesmas. 

Fiquei pensando: qual é o nosso valor?

O da cia Beradera ficou claro. Todos os olhos antes atentos se converteram em palmas que demoraram a cessar quando o espetáculo terminou.
Um belíssimo trabalho que merece ser mostrado quantas vezes mais for possível. E se eu puder ver de novo "é pra lá que eu vou, é pra lá que eu vou".
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Lete é interpretada por:
Andressa da Silva - atriz
Cláudio Zarco - ator
Elizeu Braga - ator
Rodrigo Vrech, ator e diretor

Este ano de 2015 fizeram uma turnê pelo norte do país mostrando a peça à vários estados através do Sesc Amazônia das Artes. 


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Circuito Soma #5


Sempre faço vídeos de algumas músicas em todos os shows que vou. A depender de condições técnicas como bateria e espaço do celular, mas em geral isso é válido.
Descobri porquê agora quando fui começar a fazer esse texto. A desculpa anterior sempre foi 'mostrar pra quem perdeu', mas acabo de descobrir: a verdade é egoísta. Faço isso pra relembrar. E revendo os vídeos penso 'como eu queria voltar àquela noite'. (Aliás, quase todos eventos do MOSH! eu tenho essa sensação.)

Circuito Soma #5

Contrariando as expectativas, a noite começou com show da banda Os Descordantes(AC) e não com a prata da casa, a banda Kali. Expectativas porque, costumeiramente as bandas locais é que abrem pras de fora. Não é regra, nem o mais certo ou mais errado, mas é o mais comum. Um dos organizadores justificou a ordem de entrada das bandas com "Hoje a Kali é a anfitriã". 
A banda passou o último ano em São Paulo trabalhando em novos projetos e esteve em Porto Velho este mês apresentando o single 'Bastará'. (Já falei sobre ele aqui)



O Acre foi representado por Diego Torres, voz e guitarra, George Naylor, bateria, Saulo Melo, baixo, e Heriko Rocha, novo tecladista d'Os Descordantes. Um show sensacional - como todos que já vi até aqui - apresentando em Porto Velho o disco "Espera a Chuva Passar". (Não sem antes um probleminha com o teclado, que logo foi resolvido.) 
Abriram com a música 'Três dias', primeira faixa do cd e primeira a ser tocada em todos os shows que vi; quebrando a sequência do cd a música seguinte foi 'Hombridade'. Ponto alto do show foi em 'Enquanto eu puder'. Aliás, ôh musiquinha que mexe com as pessoas. A mulherada chora, os homens esquecem da dureza que - alguns - se exigem. Todos ficam à flor da pele e sentimentais pra caramba. Serve pra todos os relacionamentos que já tive, e certeza que pro de muita gente por aí também. Acho que isso explica a forte comoção.
Quando a música começou apareceu gente de tudo que era canto pra aglomerar na frente do palco. Nem tinha reparado que tinha tanta gente ali no Pioneiros. Foi uma gritaria danada, um bocado de gente se esgoelando pro palco, como quem diz pra banda "eu estarei do seu lado".

Sai Descordantes e entra Daniel Groove. Opa, sai nada. A exemplo da noite anterior, em Rio Branco, o presidente dividiu palco com a banda acreana, que gentilmente ajudou a embalar os passos do cearense dançante.
Groove anunciou logo de cara: "A primeira vez que vim aqui a gente se conheceu, hoje a gente vai fazer amor". Acredito que ninguém discorda. Tanta gente cantando junto, aquilo mexeu com as emoções de quem estava ali assistindo. Aposto que mexeu com as dele também. Até a música nova 'Jardim Suspenso' já era cantarolada pelos fãs. 

Prestou homenagem à aniversariante, Regina Morão, que ficou agradecidíssima com a dedicatória de Novo Brega. Na mesma linha empolgante o presidente cantou Se você pensa de um outro rei, o Roberto Carlos.

Lá pelas tantas Groove ficou sozinho no palco. Anunciou que tocaria uma música completamente inédita, composta há poucos dias e "triste pra caralho".  Mas ouvi-la foi mérito para poucos. Só quem estava ali na frente e prestando atenção pôde entender a letra; voz e violão contra o burburinho da casa, mesmo após o gentil pedido de silêncio, a conversa atrapalhou um pouco. Pelo que entendi, a música era realmente triste pra caralho. Falava sobre o fim de um relacionamento. 

"Tá fazendo falta, só você... 
Conheço o meu caminho
Sabe que o meu destino passa pelo seu" 



'Nada', outra música triste pra caralho, composta em parceria com Diogo Soares, do Los Porongas (AC), foi cantada em uníssono. Groove não escondeu a satisfação e deixou o pessoal cantar boa parte do tempo. 
Junto com todos que já estavam no palco Thiago Maziero, da Kali, deu uma mãozinha no violão em algumas músicas. Ele usava uma camisa preta, nada que se compare à extravagante bata verde que escolheu para abrilhantar o show da Kali que começaria logo depois.

Vídeos dessa noite:
https://www.youtube.com/watch?v=i0LnUcZt0KE
https://www.youtube.com/watch?v=g4ofeJ_7qlQ